Factos são factos e, na história etimológica da aldeia de Ponte do Mouro, o nome da povoação conta, por si mesmo, uma história. Nesse recanto da freguesia da Barbeita, no concelho de Monção, terá a certa altura existido um povoado mourisco, cujo senhor mais proeminente inspirou a designação do curso de água local e da respetiva travessia sobre as águas. Se na margem desse curso fluvial tanto passeava o mouro, era natural que outros se referissem à zona como sendo do rio dele – e daí o “Rio Mouro” – e mencionassem a ponte como sua propriedade – e daí “Ponte do Mouro”, numa designação inalterada mesmo face a posteriores transformações arquitetônicas nessa estrutura.
Esteja a travessia sobre o rio no seu sítio original ou em local escolhido apenas no século XIV (que é a data confirmada da atual construção em pedra), certo é que a ponte ainda lá está, no seu granito nobre e distinto, a ilustrar a história da terra. O rio, esse, aprecia-se melhor agora que Ponte do Mouro tem uma praia fluvial, onde as águas cristalinas ajudam a perceber como os encantos naturais da localidade cativaram os sucessivos povos que nela se fixaram.
Encantos estéticos, tranquilidade e discrição também terão sido motivo para que Ponte do Mouro conste dos arquivos históricos como a localidade que acolheu as negociações da aliança diplomática há mais tempo em vigor em todo o mundo: o Tratado de Windsor. Firmado em 1836 entre Portugal e o Reino Unido, o documento foi consequência do apoio que os soldados ingleses prestaram às tropas portuguesas na Batalha de Aljubarrota e formaliza o compromisso de amizade perpétua e assistência mútua entre os dois reinos.
Mais de seis séculos depois, e sem negociações internacionais que a perturbem, a aldeia de Ponte do Mouro continua tranquila na disposição tradicional dos aglomerados minhotos, que se caracterizam pela organização do casario em torno de um largo central ou de uma rua principal. É esse desenho urbanístico que se aplica à aldeia onde os enviados de Windsor marcaram o casamento de D. João I com a britânica D. Filipa de Lencastre.
Por Ponte do Mouro descobrem-se assim antigas habitações em pedra, normalmente com dois pisos e um rés-do-chão reservado para animais, e outro edificado de referência, como a Capela de São Félix, a Casa do Cruzeiro, a Capela do Santo Cristo e alguns moinhos.
Se os passeios se puderem estender a localidades vizinhas, nesta porção do distrito de Viana do Castelo há ainda para conhecer a Igreja Paroquial da Barbeita, templo barroco com folhagens esculpidas nos seus retábulos de pedra, e a Citânia do Monte da Assunção, castro com três linhas de muralha que, em Bela, teve a sua primeira ocupação na Idade do Bronze e depois seria apropriado pelos romanos.
Em qualquer visita, há que provar as iguarias locais – arroz de lampreia, sável, cabrito assado no forno, cordeiro e roscas – e, se possível, participar no FolkMonção, que todos os anos leva danças típicas do folclore nacional e estrangeiro a diversas localidades do distrito, entre as quais a freguesia onde está sedeada a entidade organizadora do certame, que é o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Barbeita.
Obrigatório mesmo, no entanto, é dar dois dedos de conversa com os habitantes de Ponte de Mouro, que, quando não estão retidos pelos seus afazeres agrícolas, por crescentes encomendas de serralharia e pela incontornável produção de vinho Alvarinho, são gente hospitaleira e de fácil diálogo. ■